Graciliano Ramos

Página 1 de 3 1, 2, 3  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Graciliano Ramos

Mensagem por Mat em Ter Nov 15, 2011 7:52 pm

Alguém aqui já leu o Graciliano?
Eu vi um programa hoje na globo news [espaço aberto literatura] em homenagem a ele e fiquei com vontade de ler. Já tem um tempo que estou de olho em "Angústia"; "São Bernardo" e o "Vidas secas" [sim, não li], mas o programa veio a me deixar com mais vontade.

Mostrou um lado dele que me surpreendeu: Primeiro o humor muito inteligente dele e segundo que a caracterização dos seus personagens eram tão intensas que, no programa, críticos como Antonio Cândido comparavam sua escrita ao realismo psicológico do Dostoiévski.

Eu quero começar com "Angústia" [inclusive tem uma edição nova de capa dura] e me parece ser um romance bem profundo.

Já tinha lido alguns trechos de cartas e romances dele em revistas, mas sempre na hora das compras por algum motivo me esquecia do Graciliano, pretendo acabar com isso nesses próximos meses.

"Angústia" e "Vidas secas" até o meio do ano que vem eu leio.

Quem já leu algo dele aqui?


Mat
Guerra e Paz
Guerra e Paz

Mensagens : 2968
Data de inscrição : 12/07/2011
Idade : 26
Localização : Bahia

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Graciliano Ramos

Mensagem por Jabá em Ter Nov 15, 2011 9:21 pm

Já li VIDAS SECAS há muito tempo, inclsive preciso relê-lo e recentemente S. BERNARDO, inclusive a resenha tá no tópico das últimas leituras.

No geral, gosto do autor, mas não é uma das minha prioridades, Mas pretendo ler MEMÓRIAS DO CÁRCERE.

_________________
"Os livros que o mundo chama de imorais são os livros que mostram ao mundo a sua própria vergonha" (Oscar Wilde)

Jabá
Guerra e Paz
Guerra e Paz

Mensagens : 3734
Data de inscrição : 06/09/2011
Idade : 36
Localização : Teresina/PI

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Graciliano Ramos

Mensagem por Érika Donin em Qua Nov 16, 2011 8:32 am

Eu também vi esse especial da Globo News, Mat, por isso fiquei com a mesma vontade de ler. Já até peguei Angústia na biblió (era o que estava mais ''melhor''). Alguém tem algo mais a dizer sobre o cara?

Érika Donin
A Dama do Cachorrinho
A Dama do Cachorrinho

Mensagens : 120
Data de inscrição : 22/07/2011
Idade : 21
Localização : Porto Alegre

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Graciliano Ramos

Mensagem por N. Senada em Sex Out 19, 2012 7:50 pm

Otto Maria Carpeaux escreveu:A "mestria singular" do romancista Graciliano Ramos reside no seu estilo. Para salvar esta frase da apreciação "lugar-comum" é apenas preciso definir o que é estilo: escolha de palavras, escolha de construções, escolha de ritmos dos fatos, escolha dos próprios fatos para conseguir uma composição perfeita, perfeitamente pessoal: pessoal, no caso, "à maneira de Graciliano Ramos". Estilo é escolha entre o que deve perecer e o que deve sobreviver. Vamos ver o que Graciliano Ramos escolhe.

É muito meticuloso. Quer eliminar tudo o que não é essencial: as descrições pitorescas, o lugar-comum das frases feitas, a eloqüência tendenciosa. Seria capaz de eliminar ainda páginas inteiras, eliminar os seus romances inteiros, eliminar o próprio mundo. Para guardar apenas o que é essencial, isto é, conforme o conceito de Benedetto Croce, o "lírico". O lirismo de Graciliano Ramos, porém, é bem estranho. Não tem nada de musical, nada do desejo de dissolver em canto o mundo das coisas; acredito-o incapaz de escrever a última página de O moleque Ricardo, de José Lins do Rego, talvez a mais bela página de prosa da literatura brasileira. O lirismo de Graciliano Ramos é amusical, adinâmico, estático, sóbrio, clássico, classicista, traindo, às vezes, um oculto passado parnasiano do escritor. Não quer agitar o mundo agitado; quer fixá-lo, estabilizá-lo. Elimina implacavelmente tudo o que não se presta a tal obra de escultor, dissolve-o em ridicularias, para dar lugar aos seus monumentos de baixeza.

Com efeito, o material desse classicista é bem estranho: é o mundo inferior; às mais das vezes, o mundo infernal. Lá, as almas são caçadas por um turbilhão demoníaco de angústias, como as almas no vestíbulo do Inferno de Dante:

"Qui sospiri, pianti ed alti guai
Risonavan per l’aer senza stelle...
Diverse lingue, orribili favelle
Parole di dolore, accenti d’ira..."1

É uma tortura sem fim; e o próprio Dante apiedou-se dos que

".... non hanno speranza di morte,
E la lor cieca vita è tanto bassa,
Che invidiosi son d’ogni altra sorte."2

São aqueles dos quais o romancista Graciliano Ramos também se apieda, pois é cheio de misericórdia. Procura-lhes a "altra sorte", estabilizando classicamente o turbilhão, eliminando duramente tudo o que não é essencial, erigindo-os em monumentos de baixeza, como criaturas petrificadas dum maligno Demiurgo, restos fósseis duma criação malograda, redimidos, enfim, pela criação mortífera da arte. Graciliano Ramos é o clássico deste mundo da morte.

É um clássico. Mas — contradição enigmática — é um clássico experimentador. A estréia excepcionalmente tardia, com mais de quarenta anos de idade, deve ter sido precedida de vagarosos preparativos de um experimentador, e mesmo depois continuou sempre a experimentar. O nosso amigo comum Aurélio Buarque de Holanda chamou-me a atenção para a circunstância de representar cada uma das obras de Graciliano Ramos um tipo diferente de romance. Com efeito. Caetés é dum Anatole ou Eça brasileiro; São Bernardo é digno de Balzac; Angústia tem algo de Marcel Jouhandeau, e Vidas secas algo dos recentes contistas norte-americanos. Graciliano Ramos faz experimentos com a sua arte; e como o "mestre singular" não precisa disso, temos aí um indício certo de que está buscando a solução de um problema vital.

Eu não disse nada para comparar. Comparações são fáceis e inúteis, produzem apenas apreciações de clichê, como o "sertanejo culto", sempre repetido. Não chegam a penetrar no coração da criação pessoal; e é esta justamente a minha modesta ambição. Para conseguí-lo, vou escolher um processo estranho, estranho como o meu assunto. Vou construir uma teoria para apanhar a minha vítima; vou construí-la de pedaços de outras criações, alheias, com as quais Graciliano Ramos não tem nada que ver; vou colher esses pedaços, entregando-me ao jogo livre das associações. "Gastei meses construindo esta Marina que vive dentro de mim, que é diferente da outra, mas que se confunde com ela." Vou construir o meu Graciliano Ramos.

"Meu pai, reduzido a Camilo Pereira da Silva, ficava dias inteiros manzanzando numa rede armada nos esteios do copiar, cortando palhas de milho para cigarros, lendo o Carlos Magno, sonhando". Logo me lembro do pintor incomparável da vida estática, imóvel, inconsciente, nos "engenhos" escravocratas da Rússia tzarista, daquele Gontcharov de quem me lembrei quando li a comparação do Brasil escravocrata com a Rússia servil, em Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre. Os romances de Gontcharov pintam classicamente um mundo primitivo amoral, "atrabalhador", preguiçoso demais para trabalhar, amar, viver. Parecem idílios de pura art pour l’art; são acusações terríveis contra o regime, contra o Estado russo, que quis movimentar esse mundo imóvel por pretensas reformas econômicas e sociais. O primeiro romance de Gontcharov chama-se: Uma história simples; o último: A queda.

O satírico malicioso deste movimento é outro russo, que me ocorre, Saltykov-Chtchedrine, também partidário da imobilidade conservadora, contra os experimentos liberais dos tzares de então, e que a todos pareceu um revolucionário, menos à censura, à qual ele sabia enganar pela sua mestria singular de estilista. Saltykov escreveu uma maravilhosa História da Rússia romanceada, começando com a chamada, pelo povo russo, dos três irmãos Ruriks, fundadores da dinastia, para "sistematizar e codificar a desordem e a violência". À boa maneira das epopéias, os irmãos sonham, na noite anterior à coroação, a futura história russa, e o sonho é tão terrível que dois dos irmãos logo se suicidam. Ao terceiro, porém, diz o povo: "Que te importam as mentiras que os nossos descendentes vão aprender na escola?" E ele funda o Império russo, "o maior império da história, maior do que Roma; pois em Roma brilhava o paganismo, e entre nós brilha do mesmo modo o cristianismo, em Roma raivava a plebe, e entre nós as autoridades." Assim, tudo ficava bem. Até que, um dia, um tzar teve a idéia desgraçada de reformar o Estado e a civilização. Fundou uma Academia de Letras e promulgou uma legislação em virtude da qual "foi proibido cozer pão de cimento ou argamassa". O povo agradecido povoou a cidade de monumentos dos seus príncipes, na esperança de fazer parar, petrificar, assim, as atividades deles. Mas, pelos benefícios do governo, os homens transformaram-se em lobos famintos; como numa fábula de Saltykov, o Pobre lobo, o monstro que não é maligno mas que não pode viver sem carne e que, por isso, deve matar, e invoca a morte salvadora para as vítimas e para si mesmo.

O monstro lembra-me o terrível Leviatã, de Julien Green, que vive no coração de inofensivos mestres-escola, filhos-família, rendeiros abastados, para revoltar-se de súbito, um dia, arremessar-se insaciavelmente, o monstro, por quartos de assassínio, escadas funestas, becos escuros, até descansar, extenuado, à margem do rio noturno, que corre lento, sujo, pela cidade, único resto da paisagem primitiva que existia antes deste mundo artificial e miserável de instituições públicas, jornais públicos, mulheres públicas, e que ainda existirá quando tudo isto houver acabado. E o monstro desgraçado curva-se nostalgicamente sobre a água escura, suja, que lhe oferece a última possibilidade de salvação: o próprio rosto, refletido lá no fundo, é o da morte.

Todas as personagens de Graciliano Ramos são tais monstros, revoltados, caçados, nostálgicos da morte, com os quais o Demiurgo, o "presidente dos imortais", brinca. A expressão "the president of the immortals" é de Thomas Hardy, também um "sertanejo culto", pequeno intelectual, perdido no "sertão" inglês de Wessex, a paisagem mais agrária, mais atrasada, mais primitiva, da Inglaterra, onde se passam todos os seus romances, para onde o velho Hardy enfim se retirou, a viver a vida arcaica e imóvel dos rochedos e pântanos, abandonando, enfim, o romance para fazer só os seus pequenos poemas, endurecidos como monumentos pré-históricos, e cujas rimas fielmente tradicionais anunciam a reconciliação resignada do poeta com o mundo morto:

"Black is night’s cope;
But death will no appal
One who, past doubtings all,
Waits in unhope."3

O crítico espanhol José Bergamín gostaria dessas associações. Confirmam a sua teoria do romance: o leitor perde-se no romance para esquecer o seu mundo, mas encontra-se lá, reconhecendo que o seu próprio mundo está chamado a desaparecer: "Perderse, para encontrarse, para perderse." O romance seria um processo de economia mental para apressar o fim do mundo: "Cada novela es la manifestación de un mundo llamado a desaparecer, y que antes de desaparecer quiere aparecer, comparecer: y aparece, comparece en efecto, solicitando esperando ser juzgado".

É a teoria dum espanhol, dum cristão, dum pessimista. A teoria dum espanhol, isto é, dum homem que toma radicalmente a sério o cristianismo. A teoria dum cristão, isto é, dum homem que sabe que esta vida não presta. É uma teoria de estética pessimista.

Toda literatura pessimista encontra uma resistência fanática; leitores e críticos não gostam disso. Sentem vagamente que arte e pessimismo se contradizem. Mas em vez de estudarem esteticamente a possível contradição, entrincheiram-se em regiões fora da arte, na filosofia, na ética, para bombardear o romancista com as censuras de "pouca generosidade" ou de niilismo insaudável. Não admito preconceitos. O pessimismo não é uma moral nem uma filosofia. É um estado de alma. É preciso esboçar uma psicologia do pessimismo.

Penso em Schopenhauer. Não é um sistema filosófico. É um caso psicológico. Pretendeu ser filósofo, ensinar uma filosofia da salvação do mundo do sofrimento universal. Mas a sua personalidade o desmentiu. Ao desprezo filosófico do mundo uniu um instinto ardente de propriedade e de prazer. Dinheiro e mulheres significavam para ele alguma coisa. Quis utilizar os homens profundamente desdenhados como meros instrumentos dos seus desejos, e quanto mais eles se recusaram, tanto mais os desdenhou. Sofria de hipocondria, de graves ataques de pavor noturno, de angústia. Teve uma misericórdia ilimitada para consigo mesmo. Como psicólogo, reconheceu que toda misericórdia para com outros é secreta misericórdia para consigo mesmo; e salvou-se moralmente pela identificação panteística do seu eu angustiado com o mundo sofredor, pela fórmula budista "Tat twam asi." "Isto és tu." O seu supremo egocentrismo chegou até a negar a realidade do mundo exterior; considerou a vida um sonho, sonho horrível do qual existe apenas uma possibilidade de acordar: no outro sonho, na arte. Na arte, o turbilhão angustiado encontra a calma, a estabilidade do estado primitivo antes da criação é restabelecida. (Como as palavras rimam, enfim!) A arte é uma astúcia do espírito humano, para fraudar o mau Demiurgo das suas vítimas, para ironizar a criação malograda.

A ironia é uma arma suprema. "C’est l’ironie" — diz Max Jacob — "qui lui fournit chaque jour une clé pour sortir de sa prison." 4 É um método para anular a obra do Demiurgo. "Revogam-se as disposições em contrário". E tornam-se inúteis todas as revoluções. Em comparação com aquela ironia supra-realista, todas as revoluções, intimamente ligadas a este mundo de maldição por meio de um otimismo crédulo nas transformações exteriores, parecem ridiculamente ineptas, impotentes contra "the ingenious machinery contrived by the Gods for reducing human possibilities of amelioration to a minimum".5 Acredito que Graciliano Ramos pode conformar-se com esta frase de Thomas Hardy. Conheço bem ou bastante as suas convicções, para ficar convencido, da minha parte, de que representam apenas a superfície do seu pensamento. Não são transformáveis em arte; e isto é significativo. Luís Padilha e o judeu Moisés não são heróis revolucionários. Cada vez que o romancista cede à tentação de formular programas de reformas sociais — a professora Madalena fala assim — cai logo na armadilha do seu inimigo mais detestado: o lugar-comum; no caso, o lugar-comum humanitário, da "generosidade", que o seu crítico mais incompreensivo lhe aconselhou. Certamente, a alma deste romancista seco não é seca; é cheia de misericórdia e de simpatia para com todas as criaturas, é muito mais vasta do que um mestre-escola filantrópico pode imaginar; abrange até o mudo assassino Casimiro Lopes, até a cachorrinha Baleia, cuja morte me comoveu intensamente: "Tat twam asi." A misericórdia do pessimista para consigo mesmo é tão compreensiva que medita todos os meios de salvação, para deter-se apenas no último: a destruição deste mundo, para libertar todas as criaturas. "Un mundo llamado a desaparecer." É preciso destruir o mundo exterior, para salvar a alma.

A realidade, nos romances de Graciliano Ramos, não é deste mundo. É uma realidade diferente. Após ter lido Angústia até o fim, é preciso reler as primeiras páginas, para compreendê-las. É um mundo fechado em si mesmo. Que mundo é?

"Há nas minhas recordações estranhos hiatos. Fixaram-se coisas insignificantes. Depois um esquecimento quase completo" — confessa Luís da Silva em Angústia. E depois: "Como certos acontecimentos insignificantes tomam vulto, perturbam a gente! Vamos andando sem nada ver. O mundo é empastado e nevoento." E acrescenta: "Não sei se com os outros se dá o mesmo. Comigo é assim." É assim com todos nós outros, quando entramos no mundo empastado e nevoento, noturno, onde os romances de Graciliano Ramos se passam: no sonho. Os hiatos nas recordações, a carga de acontecimentos insignificantes com fortes afetos inexplicáveis, eis a própria "técnica do sonho", no dizer de Freud. Álvaro Lins, no melhor artigo que se escreveu sobre Graciliano Ramos, observou agudamente a abstração do tempo — "Mas no tempo não havia horas", cita o crítico —, e acrescenta: "Os outros personagens são projeções do personagem principal. Julião Tavares e Marina só existem para que Luís da Silva se atormente e cometa o seu crime. Tudo vem ao encontro do personagem principal — inclusive o instrumento do crime". Estas palavras do crítico constituem a chave da obra do romancista: descrevem perfeitamente a nossa situação no sonho, em que tudo é criação do nosso próprio espírito. Explica-se assim o extremo egoísmo dos heróis de Graciliano Ramos: é o egoísmo daquele que sonha e para o qual, prisioneiro dum mundo irreal, só ele mesmo existe realmente. A mentalidade inteiramente amoral do sonho exclui, decerto, toda "generosidade"; mas a substitui por um sentimento mais vasto de identificação quase mística com as criaturas da própria imaginação, até a cachorrinha Baleia: "Tat twam asi."

O extremo egoísmo do sonho engendra o motivo principal do romancista: cobiça de propriedade. Propriedade de terra, de mulher, em São Bernardo; aqui e em Angústia, a forma extrema desta cobiça, o ciúme. Por isso, nos romances de Graciliano Ramos, esses afetos ultrapassam toda medida; sugerem, ao lado dos afetos análogos na vida real, a impressão de sentimentos patológicos. E quando o autor considera os monstros da sua angústia de sonho, lança o seu grito mais elementar: "Dinheiro e propriedade dão-me sempre desejos violentos de mortandade e outras destruições."

"Ai quando virá o anjo da destruição
p’ra acabar com a minha memória..."

(Murilo Mendes).

Todos os romances de Graciliano Ramos — e este é o sentido do seu experimentar — são tentativas de destruição; tentativas de "acabar com a minha memória", tentativas de dissolver as recordações pelos "estranhos hiatos" dum sonho angustiado. Trata-se de saber que mundo de recordações se dissolve assim.

A resposta é bastante difícil. Surge, ainda uma vez, o clichê do "sertanejo culto" e sugere aos críticos a idéia de que o romancista está furioso contra o ambiente selvagem do seu passado. Mas não é assim. Não é o sertão o culpado; Vidas secas é o seu romance relativamente mais sereno, relativamente mais otimista. O culpado é — superficialmente visto, numa primeira aproximação — a cidade. O herói de Graciliano Ramos é o sertanejo desarraigado, levado do mundo primitivo, imóvel, para o mundo do movimento. É o vagabundo ("um pobre nordestino..."); e explica-se o seu ódio balzaquiano ao mundo burguês, que conseguiu a estabilidade relativa do comércio de secos e molhados. Esta vagabundagem é o aspecto sociológico do egoísmo do sonho quando se choca com a realidade. É o desejo violento do vagabundo de restabelecer-se na terra: "Como a cidade me afastara de meus avós!" Mas é apenas uma explicação em primeira aproximação: pois Paulo Honório consegue o seu fim, e, contudo, é uma vida malograda. Por quê? Porque o seu criador quer mais do que terra, casa, dinheiro, mulher. Quer realmente voltar aos avós. Voltar à imobilidade, à estabilidade do mundo primitivo. E para atingir este fim, deve antes destruir o mundo da agitação angustiada, à qual está preso.

Os romances de Graciliano Ramos são experimentos para acabar com o sonho de angústia que é a nossa vida. Uma lenda budista conta dum homem que correu, ao sol do meio-dia, para fugir à sua sombra, que o angustiava; correu, correu, sempre perseguido pelo companheiro sinistro, até que encontrou o grande Sábio, que lhe disse: — "Não continues a fugir! Assenta-te sob esta árvore!" E como ele parou, a sombra desapareceu. A sombra sobre o mundo de Graciliano Ramos não é a sombra da árvore da salvação, mas a do edifício da nossa civilização artificial — cultura e analfabetismo letrados, sociedade, cidade, Estado, todas as autoridades temporais e espirituais, que ele convida ironicamente — no começo de São Bernardo — a colaborar na sua obra de destruição. Mas eles mostram-se incapazes de cometer o suicídio proposto. Entrincheiram-se na "dura realidade", imposta a todas as criaturas do Demiurgo, e que se arroga todos os atributos da eternidade. O romancista, porém, não se conforma. Transforma esta vida real em sonho — pois do sonho, afinal, se acorda. Então, as disposições funestas do Demiurgo seriam revogadas, e o destruidor poderia dizer, com o Gide das Nouvelles Nourritures: "Table rase. J’ai tout balayé. C’en est fait. Je me dresse nu sur la terre vierge, derrière le ciel à repeupler."6

O fim é o estado primitivo do mundo — o céu repovoado. Então, a angústia já não assusta.

"Black is night’s cope;
But death will not appal
One who, past doubting all,
Waits in unhope."

Foi a última sabedoria poética do romancista Thomas Hardy, versos duros, populares e clássicos ao mesmo tempo, rimados em sinal da concordância resignada com o mundo. É possível que o romancista Graciliano Ramos escreva também, um dia, tais versos, duros, populares e clássicos ao mesmo tempo, versos tradicionais, como o velho Hardy. Mas não serão rimados. Serão versos brancos. Pois a primeira rima de Graciliano Ramos já anunciaria o Fim do Mundo e - quem sabe - a salvação desse mundo.

N. Senada
Noites Brancas
Noites Brancas

Mensagens : 23
Data de inscrição : 16/12/2011
Localização : Peruíbe - SP

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Graciliano Ramos

Mensagem por N. Senada em Sex Out 19, 2012 7:53 pm

Na verdade o texto que eu tenho em mãos é um pouco diferente deste, acabei me dando conta só agora na releitura...

N. Senada
Noites Brancas
Noites Brancas

Mensagens : 23
Data de inscrição : 16/12/2011
Localização : Peruíbe - SP

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Graciliano Ramos

Mensagem por Becco em Sex Out 19, 2012 9:21 pm

O mais russo dos escritores brasileiros.

_________________

Becco
Dostoiévski
Dostoiévski

Mensagens : 2504
Data de inscrição : 11/07/2011
Idade : 37
Localização : Fortaleza - CE

Ver perfil do usuário http://literaturarussa.forumeiros.com/

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Graciliano Ramos

Mensagem por Franz em Qua Nov 07, 2012 7:20 am

A última entrevista de Graciliano Ramos:
http://www.revistabula.com/posts/entrevistas/a-ultima-entrevista-de-graciliano-ramos

Franz
A Dama do Cachorrinho
A Dama do Cachorrinho

Mensagens : 143
Data de inscrição : 23/09/2012

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Graciliano Ramos

Mensagem por Becco em Qua Nov 07, 2012 10:36 am

Valeu pela entrevista.

Estou lendo as Cartas dele.
Pretendo ler depois, nessa ordem, Viagem, os contos e os romances [inclusive os que já li no colegial ou na faculdade].
Escritor foda, um dos que o Brasil deve se orgulhar de ter mesmo!

_________________

Becco
Dostoiévski
Dostoiévski

Mensagens : 2504
Data de inscrição : 11/07/2011
Idade : 37
Localização : Fortaleza - CE

Ver perfil do usuário http://literaturarussa.forumeiros.com/

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Graciliano Ramos

Mensagem por lavoura em Qua Nov 07, 2012 12:23 pm

Muito boa entrevista! Tenho curiosidade em ler o Vidas Secas. E ouvir falar bem de Angústia.

lavoura
Guerra e Paz
Guerra e Paz

Mensagens : 2348
Data de inscrição : 26/06/2012
Idade : 28

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Graciliano Ramos

Mensagem por Jabá em Qua Nov 07, 2012 1:08 pm

lavoura escreveu:Muito boa entrevista! Tenho curiosidade em ler o Vidas Secas. E ouvir falar bem de Angústia.

Vidas Secas me fez verter uma lágrima contrita. Vou reler ano que vem.

_________________
"Os livros que o mundo chama de imorais são os livros que mostram ao mundo a sua própria vergonha" (Oscar Wilde)

Jabá
Guerra e Paz
Guerra e Paz

Mensagens : 3734
Data de inscrição : 06/09/2011
Idade : 36
Localização : Teresina/PI

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Graciliano Ramos

Mensagem por Becco em Qua Nov 07, 2012 2:58 pm

lavoura escreveu:Muito boa entrevista! Tenho curiosidade em ler o Vidas Secas. E ouvir falar bem de Angústia.

Acho melhor o Angústia, inclusive.

_________________

Becco
Dostoiévski
Dostoiévski

Mensagens : 2504
Data de inscrição : 11/07/2011
Idade : 37
Localização : Fortaleza - CE

Ver perfil do usuário http://literaturarussa.forumeiros.com/

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Graciliano Ramos

Mensagem por lavoura em Sex Nov 16, 2012 1:52 pm

Lorenzo Becco escreveu:
lavoura escreveu:Muito boa entrevista! Tenho curiosidade em ler o Vidas Secas. E ouvir falar bem de Angústia.

Acho melhor o Angústia, inclusive.

Becco, você que gosta.
Já viu o Garranchos ?


A reccord lançou um box também com os 4 romances dele.

lavoura
Guerra e Paz
Guerra e Paz

Mensagens : 2348
Data de inscrição : 26/06/2012
Idade : 28

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Graciliano Ramos

Mensagem por Becco em Sex Nov 16, 2012 2:21 pm

lavoura escreveu:Becco, você que gosta.
Já viu o Garranchos ?

Já vi, mas não comprei. Só vou ler esse quando tiver acabado os romances e as memórias.

Becco
Dostoiévski
Dostoiévski

Mensagens : 2504
Data de inscrição : 11/07/2011
Idade : 37
Localização : Fortaleza - CE

Ver perfil do usuário http://literaturarussa.forumeiros.com/

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Graciliano Ramos

Mensagem por César em Sex Nov 16, 2012 2:57 pm

S Bernardo é uma bosta, os outros são legais.

_________________
http://arecordfullofsournotes.tumblr.com

César
Púchkin
Púchkin

Mensagens : 1792
Data de inscrição : 11/07/2011
Idade : 28
Localização : São Paulo/SP

Ver perfil do usuário http://twitter.com/likeapisces

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Graciliano Ramos

Mensagem por lavoura em Seg Nov 19, 2012 10:45 am



Olha o Box de comemoração dos 120 anos.

lavoura
Guerra e Paz
Guerra e Paz

Mensagens : 2348
Data de inscrição : 26/06/2012
Idade : 28

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Graciliano Ramos

Mensagem por Becco em Seg Nov 19, 2012 1:56 pm

lavoura escreveu:

Olha o Box de comemoração dos 120 anos.


_________________

Becco
Dostoiévski
Dostoiévski

Mensagens : 2504
Data de inscrição : 11/07/2011
Idade : 37
Localização : Fortaleza - CE

Ver perfil do usuário http://literaturarussa.forumeiros.com/

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Graciliano Ramos

Mensagem por Karenina em Ter Dez 04, 2012 1:47 pm

Nunca li, mas vi aqui num sebo da UFSC uma edição de São Bernardo por 5 pila. Talvez eu compre.

Karenina
Crime e Castigo
Crime e Castigo

Mensagens : 870
Data de inscrição : 19/09/2011
Idade : 28

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Graciliano Ramos

Mensagem por Oric em Qua Jan 02, 2013 10:05 am

Li São Bernardo, Angústia e Vidas Secas, o que foi o suficiente para torná-lo meu autor nacional favorito até então.

Gosto muito de sua narrativa e dos temas retratados.

Vale citar um trecho da entrevista acima:

Sua obra de ficção é autobiográfica?

Não se lembra do que lhe disse a respeito do delírio no hospital? Nunca pude sair de mim mesmo. Só posso escrever o que sou. E se os personagens se comportarem de modos diferente, é porque não sou um só. Em determinadas condições, procederia como esta ou aquela das mi­nhas personagens.

E o trecho que está na contracapa de diversos livros que, por sinal, foi o que me fez decidir levar o livro para casa:

“Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.”

Li na época do cursinho e penso em voltar a lê-lo, dessa vez explorando também outras obras (principalmente Caetés, Infância, Insônia, Memórias do Cárcere).

Oric
Crime e Castigo
Crime e Castigo

Mensagens : 947
Data de inscrição : 18/12/2012

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Graciliano Ramos

Mensagem por Becco em Qua Jan 02, 2013 1:19 pm

Mais um gracilianista!

_________________

Becco
Dostoiévski
Dostoiévski

Mensagens : 2504
Data de inscrição : 11/07/2011
Idade : 37
Localização : Fortaleza - CE

Ver perfil do usuário http://literaturarussa.forumeiros.com/

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Graciliano Ramos

Mensagem por Oric em Qua Jan 02, 2013 4:25 pm

cheers

Lorenzo Becco escreveu:O mais russo dos escritores brasileiros.

Por falar nisso, Becco, achei bem interessante a sua afirmação. Já pensei um pouco no assunto, principalmente nas relações entre Angústia e Crime e Castigo. Mas nunca li nada sobre. Se puder discorrer um pouco sobre o assunto. Smile

Oric
Crime e Castigo
Crime e Castigo

Mensagens : 947
Data de inscrição : 18/12/2012

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Graciliano Ramos

Mensagem por Becco em Dom Jan 20, 2013 8:34 am

Oric escreveu:Se puder discorrer um pouco sobre o assunto. Smile

É o escritor nacional mais influenciado pelo Dosta.
Quando ele foi pra Rússia disse em carta que estava indo pra "Terra Santa", isso vindo de um ateu.
Eles se aproximam principalmente em dois pontos ao meu ver:
a) A sondagem psicológica dos personagens.
b) A imagem do sofrimento humano, a piedade pelos humilhados e ofendidos.
Angústia é um excelente exemplo, é praticamente um romance russo.

Jabá, cadê tua resenha de Baleia e seus amigos?

_________________

Becco
Dostoiévski
Dostoiévski

Mensagens : 2504
Data de inscrição : 11/07/2011
Idade : 37
Localização : Fortaleza - CE

Ver perfil do usuário http://literaturarussa.forumeiros.com/

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Graciliano Ramos

Mensagem por Jabá em Dom Jan 20, 2013 11:47 pm

Becco escreveu:
Oric escreveu:Se puder discorrer um pouco sobre o assunto. Smile

É o escritor nacional mais influenciado pelo Dosta.
Quando ele foi pra Rússia disse em carta que estava indo pra "Terra Santa", isso vindo de um ateu.
Eles se aproximam principalmente em dois pontos ao meu ver:
a) A sondagem psicológica dos personagens.
b) A imagem do sofrimento humano, a piedade pelos humilhados e ofendidos.
Angústia é um excelente exemplo, é praticamente um romance russo.

Jabá, cadê tua resenha de Baleia e seus amigos?

Parem de falar bem do autor ou eu me apaixono de vez.
Becco, depois que li 3 estudos de um tal de Álvaro Lins no final de Vidas Secas funcionando como um posfácio de outros livros porque quase nada remete à obra, deduzi pelas pistas deixadas que o Angústia é um maldito romance russo!!! E agora você quase afirma isso. Que porra é essa? Estou ficando bom nisso?! Shocked

Eu tenho que ler esse livro o quanto antes. Mas vou ler Infância que já me caiu em mãos.

E talvez amanhã eu escreva a rezinha. Ando lendo bastante, bebendo e fazendo amor esses dias.

E com relação ao item b do seu post, vou discordar em se tratando de Vidas Secas.

_________________
"Os livros que o mundo chama de imorais são os livros que mostram ao mundo a sua própria vergonha" (Oscar Wilde)

Jabá
Guerra e Paz
Guerra e Paz

Mensagens : 3734
Data de inscrição : 06/09/2011
Idade : 36
Localização : Teresina/PI

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Graciliano Ramos

Mensagem por Becco em Seg Jan 21, 2013 6:35 am

Jabá escreveu:Parem de falar bem do autor ou eu me apaixono de vez.

Aí a culpa é dele.

Jabá escreveu:Becco, depois que li 3 estudos de um tal de Álvaro Lins no final de Vidas Secas funcionando como um posfácio de outros livros porque quase nada remete à obra, deduzi pelas pistas deixadas que o Angústia é um maldito romance russo!!! E agora você quase afirma isso. Que porra é essa? Estou ficando bom nisso?! Shocked

Claro que está, Jabá.
Você é melhor nisso do que muito colega meu com mestrado em literatura.
Povinho só lê um autor na vida e fica só naquilo.

Jabá escreveu:Eu tenho que ler esse livro o quanto antes. Mas vou ler Infância que já me caiu em mãos.

Infância também é dostoievskiano por que tem criancinha comendo o pão que o Diabo amassou.

Jabá escreveu:E talvez amanhã eu escreva a rezinha. Ando lendo bastante, bebendo e fazendo amor esses dias.

Folgo em saber.

Jabá escreveu:E com relação ao item b do seu post, vou discordar em se tratando de Vidas Secas.

Mas, Jabá, ele mostrar os humanos tão animalizados é um sinal de piedade por aquela condição.
A narrativa dele é seca, mas não confunda secura com falta de piedade.

E a Baleia é a predileta dele, a mais humana ali, como demonstra o sensacional trecho do Céu dos preás.

_________________

Becco
Dostoiévski
Dostoiévski

Mensagens : 2504
Data de inscrição : 11/07/2011
Idade : 37
Localização : Fortaleza - CE

Ver perfil do usuário http://literaturarussa.forumeiros.com/

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Graciliano Ramos

Mensagem por Oric em Seg Jan 21, 2013 6:03 pm

Becco escreveu:
Oric escreveu:Se puder discorrer um pouco sobre o assunto. Smile

É o escritor nacional mais influenciado pelo Dosta.
Quando ele foi pra Rússia disse em carta que estava indo pra "Terra Santa", isso vindo de um ateu.
Eles se aproximam principalmente em dois pontos ao meu ver:
a) A sondagem psicológica dos personagens.
b) A imagem do sofrimento humano, a piedade pelos humilhados e ofendidos.
Angústia é um excelente exemplo, é praticamente um romance russo.

Concordo demais, Beccaço.

Terminei ontem "Caetés". É um bom começo na literatura, tem seus momentos, Graciliano já apresenta sua bela prosa, mas não me empolgou tanto quanto os outros. Natural, ele vai se desenvolver melhor depois. Apesar disso, achei principalmente o começo e o fim do livro bem bacana, o miolo que me pareceu menos profundo.

Pode ser também que a vibe ruim que eu estava esses dias (estresse e tals) tenha atrapalhado. Sad

Oric
Crime e Castigo
Crime e Castigo

Mensagens : 947
Data de inscrição : 18/12/2012

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Graciliano Ramos

Mensagem por Jabá em Ter Jan 22, 2013 1:48 pm



VIDAS SECAS
GRACILIANO RAMOS
RECORD – 160 PÁGINAS


Li o romance pela segunda vez e a sensação é que o gosto de amargo foi acentuado. Aos 16 anos, por obrigação da professora de português a classe teve que ler o romance e escrever suas impressões. Na época o romance me marcou. Principalmente o capítulo da cachorra Baleia.
Passaram-se tantos anos e ao reler a obra com um pouco mais de maturidade pude constatar alguns fatos interessantes e que só aumentou minha vontade de cair de cabeça na bibliografia do autor.
A começar pelo título, pelo choque inicial de ler as pessoas vagando por uma terra tórrida à espera do fim iminente e serem comidos por urubus naquele deserto esquecido outrora cheio de vida, faz com que se reflita que, mesmo sem precisar avançar muito na leitura, o título tem um duplo sentido: as vidas secas se referem ao próprio fenômeno seca como denotam também vidas vazias, ocas, destituídas de sentido. Pessoas vagando num mundo onde o fenômeno seca é sempre esperado e recai sobre suas cabeças como uma sentença, uma maldição.
Cada capítulo do livro é dedicado a um personagem ou fato. Temos o patriarca Fabiano, a mulher, os dois filhos, a cachorra Baleia dentre outros que faz com que cada capítulo funcione como um microconto, sem muita preocupação com cronologia. Nesse caso, o tempo é irrelevante, pois o autor se concentra mais no lado psicológico de cada um. E nesse aspecto podemos ver que todos têm seus fantasmas e tormentos.
Curiosamente, partes desses tormentos são acentuados pelo próprio autor que parece torturar seus personagens e submetê-los a um tratamento desumano retratando-os como bestas irracionais, vítimas do meio e guiados por seus instintos. O contrário ele faz com a cachorra Baleia, que é tratada com piedade e em alguns trechos parece “refletir” criando assim um cenário ainda mais paradoxal e degenerado. O mais humano dos personagens é uma cachorra. Esse é o segundo choque.
A linguagem chega a ser outra quebra do status-quo. A coloquialidade e as onomatopeias tomam de conta das páginas. Comumente os personagens se expressam por grunhidos e resmungos. Os termos regionais abundam e fazem o leitor imergir na narrativa que por vezes se torna telegráfica em alguns trechos.
Com esse romance, Graciliano Ramos se sobressai como um dos grandes investigadores da alma humana com seus personagens afundando lentamente num vórtice de apatia e inanição, ou seja, mais algumas vítimas da vida.

_________________
"Os livros que o mundo chama de imorais são os livros que mostram ao mundo a sua própria vergonha" (Oscar Wilde)

Jabá
Guerra e Paz
Guerra e Paz

Mensagens : 3734
Data de inscrição : 06/09/2011
Idade : 36
Localização : Teresina/PI

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Graciliano Ramos

Mensagem por Conteúdo patrocinado Hoje à(s) 1:06 am


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 1 de 3 1, 2, 3  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum