Luis Fernando Veríssimo

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Mensagem por Gourmet em Dom Nov 20, 2011 6:34 am

Nem sei porque estou abrindo o tópico, mas ele publicou esse conto e considerei provavelmente um dos melhores dele.

Adivinha quem é?
Tudo começou quando ele chegou por trás dela, tapou seus olhos e disse: — Adivinha quem é?
E ela:
— George Clooney.
Pra quê. Inauguraram-se três linhas de raciocínio. Uma: ela realmente pensara que o George Clooney entrara na sua cozinha, pé ante pé, tapara os seus olhos com suas mãos e dissera “Adivinha quem é?”, ainda por cima em português.
— Por que não? — disse ela. E arrematou: — Tudo é possível.
— Faça-me o favor — disse ele. — O que o George Clooney estaria fazendo, já não digo na nossa cozinha, mas no Brasil, sem ninguém saber? Hein?
— Veio lançar um filme.
— Muito bem. Veio lançar um filme, se perdeu na cidade, entrou no nosso prédio, entrou no nosso apartamento, viu a porta da nossa cozinha aberta e você aqui, de bermudas, cortando cenoura, e decidiu entrar?
— Tudo é possível.
— E o português? Como é que ele sabe português?
— Como é que você sabe que ele não sabe português?
— Como é que ele passou pelo porteiro sem ser anunciado? Como é que tinha a chave do apartamento? Ora, faça-me o favor!
Segunda linha de raciocínio: fora uma brincadeira. Claro que ela sabia que não era o George Clooney, era o marido. Dissera “George Clooney” para fazer ele rir. Não esperava que ele não fosse gostar da brincadeira. O George Clooney na minha cozinha? Eu nestes trajes? Cortando cenoura? Claro que era impossível. Brincadeira.
— Não foi brincadeira.
— Foi, bem.
— Não foi. Do jeito que você disse “George Clooney”, não foi.
— Foi o quê?
(Chegamos ao terceiro raciocínio.)
— O tom em que você disse “George Clooney”. Quase um lamento. O que você realmente estava dizendo era “que remédio, só pode ser o chato do meu marido. Não pode ser outro homem, outra vida, outro futuro, longe desta cozinha, longe de tudo que é pequeno e mesquinho e previsível e...”
— Bem, vai pra sala ver seu “Jornal Nacional”, vai.
— A cenoura é pra quê?
— Refogado com vagem. Como sempre.

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Re: Luis Fernando Veríssimo

Mensagem por Becco em Dom Nov 20, 2011 9:20 am

Mas olha só que coincidência!
Acabei de terminar de ler um livro do Verissimo e já vinha aqui pra abrir o tópico!
O livro em questão era esse:




Verissimo é ótimo pra chamar a atenção dos alunos irrequietos nas aulas de interpretação por que seus textos são: a) curtos e saborosos, b) engraçados sem serem vulgares, c) inteligentes sem serem pedantes.

As pessoas tendem a achar que é uma literatura menor, mas, porra, não é!
Crônica é um puta negócio difícil de escrever, e o LFV é um dos nossos melhores, continuando uma tradição nacional que tem nomes como Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e muitos outros!
E tudo isso numa base diária! Sem perder a qualidade! Não é pra qualquer um não.

Dos romances dele, só li esse [delicioso, já que é sobre a gula]:



Das crônicas, li bem mais:









Destes, o meu preferido é Banquete com os deuses, que são crônicas sobre literatura, cinema, música e arte em geral, nas quais você pode ver que, mesmo sem nunca ter se formado em faculdade alguma, Verissimo tem uma cultura invejável. Recomendo vivamente a todos os amiches!

Contribuindo, uma que li neste Mais comédias para ler na escola e gostei muito foi esse pastiche do Kafka:


Luis Fernando Verissimo escreveu:A Metamorfose

Uma barata acordou um dia e viu que tinha se transformado num ser humano. Começou a mexer suas patas e viu que só tinha quatro, que eram grandes e pesadas e de articulação difícil. Não tinha mais antenas. Quis emitir um som de surpresa e sem querer deu um grunhido. As outras baratas fugiram aterrorizadas para trás do móvel. Ella quis segui-las, mas não coube atrás do móvel. O seu segundo pensamento foi: "Que horror... Preciso acabar com essas baratas..."

Pensar, para a ex-barata, era uma novidade. Antigamente ela seguia seu instinto. Agora precisava raciocinar. Fez uma espécie de manto com a cortina da sala para cobrir sua nudez. Saiu pela casa e encontrou um armário num quarto, e nele, roupa de baixo e um vestido. Olhou-se no espelho e achou-se bonita. Para uma ex-barata. Maquiou-se. Todas as baratas são iguais, mas as mulheres precisam realçar sua personalidade. Adotou um nome: Vandirene. Mais tarde descobriu que só um nome não bastava. A que classe pertencia?... Tinha educação?.... Referências?... Conseguiu a muito custo um emprego como faxineira. Sua experiência de barata lhe dava acesso a sujeiras mal suspeitadas. Era uma boa faxineira.

Difícil era ser gente... Precisava comprar comida e o dinheiro não chegava. As baratas se acasalam num roçar de antenas, mas os seres humanos não. Conhecem-se, namoram, brigam, fazem as pazes, resolvem se casar, hesitam. Será que o dinheiro vai dar ? Conseguir casa, móveis, eletrodomésticos, roupa de cama, mesa e banho. Vandirene casou-se, teve filhos. Lutou muito, coitada. Filas no Instituto Nacional de Previdência Social. Pouco leite. O marido desempregado... Finalmente acertou na loteria. Quase quatro milhões ! Entre as baratas ter ou não ter quatro milhões não faz diferença. Mas Vandirene mudou. Empregou o dinheiro. Mudou de bairro. Comprou casa. Passou a vestir bem, a comer bem, a cuidar onde põe o pronome. Subiu de classe. Contratou babás e entrou na Pontifícia Universidade Católica.

Vandirene acordou um dia e viu que tinha se transformado em barata. Seu penúltimo pensamento humano foi : "Meu Deus!... A casa foi dedetizada há dois dias!...". Seu último pensamento humano foi para seu dinheiro rendendo na financeira e que o safado do marido, seu herdeiro legal, o usaria. Depois desceu pelo pé da cama e correu para trás de um móvel. Não pensava mais em nada. Era puro instinto. Morreu cinco minutos depois , mas foram os cinco minutos mais felizes de sua vida.

Kafka não significa nada para as baratas...

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Re: Luis Fernando Veríssimo

Mensagem por Jabá em Dom Nov 20, 2011 9:22 am

LFV sem dúvida é um dos mais geniais da Literatura Brasileira Contemporânea.

Só li dois livros dele, mas um montão de contos, textos, excertos espalhados por aí.

Todos muito divertidos, humor na dose certa, textos inteligentes, enfim, o fato do cara ser quem ele é justifica isso. Abaixo os dois que eu li:





Edit:

Porra, Becco. Genial por demais essa metamorfose.

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Re: Luis Fernando Veríssimo

Mensagem por Karenina em Dom Nov 20, 2011 11:37 am

Gosto muitão! Lidos aqui:







Só não conheço nada do pai dele =(

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Re: Luis Fernando Veríssimo

Mensagem por Jabá em Dom Nov 20, 2011 12:01 pm

Natasha escreveu:Gosto muitão! Lidos aqui:







Só não conheço nada do pai dele =(

Eu tenho esse:



Mas nunca li.

38ª edição! foda! Surprised

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Re: Luis Fernando Veríssimo

Mensagem por tmanfrini em Dom Nov 20, 2011 2:44 pm

Capitão Rodrigo! I love you

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Re: Luis Fernando Veríssimo

Mensagem por Cássia em Qua Dez 21, 2011 7:38 am

Natasha escreveu:Gosto muitão! Lidos aqui:







Só não conheço nada do pai dele =(

Li trechos de As Mentiras Que os Homens Contam. Não curti muito.

Do pai dele, li Olhai os Lírios do Campo que adorei na primeira leitura. E senti vergonha de ter gostado na segunda.

Contudo, Clarissa é um primor. Adoro livros que retratam a passagem da infância à adolescência de forma amena, sem transformar a coisa numa tragédia. E mesmo assim, Clarissa não é uma história sem conflitos. Um livrinho fascinante.

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Re: Luis Fernando Veríssimo

Mensagem por César em Qua Dez 21, 2011 9:41 am

tmanfrini escreveu:Capitão Rodrigo! I love you
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Re: Luis Fernando Veríssimo

Mensagem por Karenina em Qua Dez 21, 2011 3:52 pm

O Olhai os lírios do campo presta? Morro de vontade de ler! Clarissa li mas nem lembro mais, preciso reler.

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Re: Luis Fernando Veríssimo

Mensagem por Cássia em Qua Dez 21, 2011 3:59 pm

Se você gosta de romances sentimentais, vai em frente. Tem até moral da história, ao final.

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Re: Luis Fernando Veríssimo

Mensagem por Jabá em Sex Nov 23, 2012 3:19 pm

Luis Fernando Verissimo, escritor e colunista do jornal O Estado de S.Paulo, continua internado no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, mas apresentou resposta ao tratamento a que vem sendo submetido na CTI.

De acordo com boletim médico divulgado pelo hospital na manhã desta sexta-feira, o escritor "encontra-se em estado ainda grave, dependente de ventilação mecânica e hemodiálise. Continua sob efeito de sedação e vem apresentando uma resposta clínica satisfatória às medidas instituídas". Um novo boletim será anunciado às 17h.

Na quinta-feira, 22, durante coletiva de imprensa, o superintendente médico da instituição, Nilton Brandão, contou que Verissimo, de 76 anos, entrou no hospital, na quarta-feira, apresentando fadiga, dores musculares e febre. Ele foi avaliado por uma equipe médica, que diagnosticou o caso como grave e estuda a origem da infecção generalizada do paciente.

A filha do escritor, Fernanda, disse ao Grupo Estado que o pai começou a se sentir indisposto na última sexta-feira, 16, após ter participado de um evento literário na cidade de Araxá, em Minas Gerais, e passado alguns dias no Rio de Janeiro. Outras pessoas que o acompanharam neste roteiro, como a sua esposa Lúcia, também passaram mal, mas já estão melhor.

Filho do escritor Érico Verissimo, Luis Fernando nasceu no dia 26 de setembro de 1936, na capital gaúcha.

Em 1973, publica seu primeiro livro, O Popular, uma coletânea de textos veiculados na imprensa. O personagem mais famoso do escritor é lançado em 1981 e a primeira edição de O Analista de Bagé esgota-se em apenas dois dias.

Começa a assinar uma página dominical no jornal O Estado de S. Paulo em 1989, onde continua colaborando atualmente, como colunista do Caderno 2. Também escreve para os jornais O Globo e Zero Hora.

Consagrado autor de contos e crônicas, Verissimo tem se dedicado nos últimos tempos a escrever romances, como Gula - O Clube dos Anjos (1998), Borges e os Orangotangos Eternos (2000) e Os Espiões (2009). Seu único livro de poemas é Poesia Numa Hora Dessas?! (2002).

Em 2011, publicou Em Algum Lugar do Paraíso, conjunto de 41 crônicas escritas nos últimos cinco anos e retiradas, em sua maioria, das páginas do Estado. "Sou mais deprimido que engraçado", revelou o escritor em entrevista ao jornalista Antonio Gonçalves Filho, do Sabático, suplemento do jornal O Estado de S. Paulo, na ocasião do lançamento da obra.

Muitos de seus livros foram traduzidos para outros idiomas e são vendidos em diversos países.

Puta merda! Crying or Very sad

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Re: Luis Fernando Veríssimo

Mensagem por Becco em Sex Nov 23, 2012 8:09 pm

Isso é uma merda mesmo. Porra, tanta gente ruim como o Maluf com uma saúde de ferro, e um cara legal como o LFV internado!
Puta mundo injusto.
Vou rezar pra ele se recuperar.

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Re: Luis Fernando Veríssimo

Mensagem por lavoura em Dom Nov 25, 2012 7:40 am

Foda =(
Ele é mais velho doque pensei. Achava que estava por volta dos 55 60 anos.
Que ele se recupere logo!!

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Re: Luis Fernando Veríssimo

Mensagem por Jabá em Sex Abr 19, 2013 12:02 am



A MESA VOADORA
LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO
GLOBO – 141 páginas


A princípio achei que esse livro do Veríssimo ia ser chato. A mesa voadora trata de viagens e gastronomia. Logo pensei que as crônicas iam focar a alta gastronomia e viagens ao exterior, e esse foi o motivo do meu aborrecimento.
O livro não ficou longe disso, mas ficou mais longe ainda de ser chato. Aliás, acho que nada que o Veríssimo escreve é chato. O sujeito é capaz de falar de tudo e arrancar boas risadas. No geral as crônicas são deliciosas, temperadas com o humor fino e o vasto conhecimento e vivência do autor, que não tem limites para sua cultura cosmopolita. Na maioria das crônicas as rusgas trocadas com os Maîtres de restaurantes chiques são simplesmente hilárias. Depois desse livro, até um copo de suco passou a ser degustado com mais prazer. E o melhor: no final dá aquela vontadezinha de viajar e fazer umas maluquices mundo afora. Muito bom (como tudo do autor) e altamente recomendável.

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Re: Luis Fernando Veríssimo

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