Literatura periférica

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Literatura periférica

Mensagem por Teufel em Ter Ago 02, 2011 6:19 pm

No tópico sobre o Lúcio Cardoso, o Mat disse: "no fim das contas o Brasil é só um bebê no que diz respeito a literatura, não? Em relação à Europa nós seremos sempre periféricos. Gostem ou não, é isso ¯\_(ツ)_/¯"
Gostaria de discutir convosco esse tema, que para mim é bastante complexa, a saber, a relação de centro e periferia na literatura, a qual, acredito, tem tudo a ver com a literatura russa. Minhas questões são: o que faz de uma literatura periférica em relação a outra? As condições econômicas mundiais determinam isso? Qual o papel da literatura periférica? E da central? A da central é vanguardista, ou seja, está sempre na frente da periférica, é mais desenvolvida? Como é o intercâmbio entre essas duas literaturas? De que modo há apropriação de uma e de outra?
Enfim... uma série de questões que me parecem interessante. Quem me fez pensar essas coisas, entre outras conversas que tive com amigos, foi Schwarz, na introdução do livro 'Um mestre na periferia do capitalismo'.

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Re: Literatura periférica

Mensagem por Mat em Ter Ago 02, 2011 6:46 pm

Cara, então, desses questionamentos que tu levantou provavelmente o que mais me chamaram atenção foram:

O que faz de uma literatura periférica em relação a outra? As condições econômicas mundiais determinam isso?

Então, eu falei que a literatura brasileira é um bebê porque de fato viemos a ter um início de literatura, como todos aqui sabem, apenas em 1500 enquanto que lá na Europa eles já tinham um Cervantes ou Moliere (naquele período ali de 1500 à 1600), ou seja um tradição muito forte desde sempre. Claro que não é por isso que nós não temos uma produção literária digna, sim, claro que temos autores muito bons, tão bons quanto qualquer europeu, mas é ingenuidade negar que na Europa essa tradição do livro, da palavra escrita é muito forte.
Quanto as condições econômicas, acho que isso faz muita diferença, um estado com dinheiro pra investir em moradia e bem estar da população, escolas, universidades, bibliotecas bem equipadas é um estado onde, consequentemente, a produção de arte e literatura será muito maior. Essa é um preocupação básica dos nossos governantes? Ou melhor, sempre foi essa a preocupação deles? Desconfio que não, infelizmente. Tome o exemplo dos ingleses, cara. Qual o período na literatura inglesa em que ocorreu o maior desenvolvimento intelectual? A época de ouro, certo? Existia naquela ilha um grande potencial para expansão de tudo e de todos, o período elisabetano transformou a Inglaterra numa máquina de produção cultural fantástica. Nada disso teria acontecido se, por parte dos políticos, não existisse uma vontade de se erguer economicamente.
Mas, eu tento não pensar muito nessa coisa de ser periferia, porque no fim das contas o que importa pro leitor é a qualidade do texto, mesmo essa "qualidade" sendo subjetiva.

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Re: Literatura periférica

Mensagem por Becco em Ter Ago 02, 2011 8:46 pm

Poxa, o fórum tá com muitas discussões e tópicos de qualidade!
Precisa sentar e pensar pra responder à altura, e, como eu estou em semana de mudança, o negócio tá meio difícil, mas, toda vez que entro e vejo tópicos instingantes como esse e o da Edonin, fico muito feliz.

Só pra jogar os meus 5 cents, não acho que exista isso de "literatura periférica" já que, mesmo literaturas bem mais jovens que a do Brasil, como a de Cabo Verde, apresentam nomes bem significativos e obras-primas, como o de Luandino Vieira.

Seja bem-vindo, Teufel.







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Re: Literatura periférica

Mensagem por Mat em Ter Ago 02, 2011 8:53 pm

Só pra jogar os meus 5 cents, não acho que exista isso de "literatura periférica" já que, mesmo literaturas bem mais jovens que a do Brasil, como a de Cabo Verde, apresentam nomes bem significativos e obras-primas, como o de Luandino Vieira.

Sim, o fato de sermos novos não impede que tenhamos um bom arcabouço de grandes autores Very Happy

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Re: Literatura periférica

Mensagem por Érika Donin em Qui Ago 04, 2011 3:57 am

Acho que é a mesma história do que o Mat falou no final do seu post.

Mas, eu tento não pensar muito nessa coisa de ser periferia, porque no fim das contas o que importa pro leitor é a qualidade do texto, mesmo essa "qualidade" sendo subjetiva

Mesmo o Brasil tendo iniciado muito ''tarde'' em relação a Europa, depois de um tempo meio que pegou o ritmo, acompanhando as ''tendências literárias'', e nós produzimos coisas realmente muito boas, como todos já sabem.

Mas essa coisa de ser periferia se encaixa nos vários problemas que a Literatura no Brasil tem, por exemplo, educação, divulgação de obras, público leitor, e até mesmo tradução.
Quem sabe não tem algum Brasileiro ai com uma obra totalmente revolucionária, mas sem dinheiro pra fazer 500 cópias do livro, sem editora se interessando, sem nenhuma ideia de como traduzir pra outra lingua e tentar publicar em outro país...
Eu realmente penso que é nessas questões que entra a periferia do Brasil. A periferia onde é mais fácil ser Mulher Melancia do que uma escritora.

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Re: Literatura periférica

Mensagem por Luciana Sousa em Sex Ago 05, 2011 12:46 pm

Essa discussão renderia uma tese...
Alguns autores discutem essa questão com bastante propriedade, entre eles, Homi Baba (O local da cultura). Se não me engano, Raimond Williams também. Sou reticente quanto ao lance de periferia e centro. A margem tantas vezes nos surpreende... No centro as coisas explodem, mas acaba havendo muita repetição, imitação, em algumas margens também.
Resumindo: Einstein tinha razão.

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Re: Literatura periférica

Mensagem por Darth Vader em Dom Ago 07, 2011 8:05 pm

Em priscas eras, a Terra já foi o centro do Universo... daí veio um herege e disse que era o Sol... certamente virá outro herege dizer que o centro do Universo é...

Quem foi que disse que o periférico era periférico, certamente estava no centro. E onde fica o centro? Depende de quem fala. Depende da atitude deste que fala.

Em outros posts, já deixei uma ideia do que penso. Hierarquias são improdutivas, por isso patrocino a invasão deste latifúndio. Daí a comparação e busca de "um melhor", "um pior" é tão válido quanto uma nota de 6 reais. As culturas não são iguais e qualquer uma delas resulta da miscigenação...

Originalidade e genialidade são tão reais quanto Papai Noel e o Coelho da Páscoa. Bram Stoker escreveu a partir do mito "vampiro". Ele não inventou a roda, já existia... ele só incrementou a coisa colocando "liga leve".

No caso brasileiro, concordo: - faltam editoras para publicar. As que existem, ficam nessa neura de procurar alguém que escreva como "Joaquim" e "Raimunda". Hierarquizando, tal e qual se fazia a 3 séculos atrás...

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Re: Literatura periférica

Mensagem por Becco em Dom Ago 07, 2011 8:35 pm

edonin escreveu:Eu realmente penso que é nessas questões que entra a periferia do Brasil. A periferia onde é mais fácil ser Mulher Melancia do que uma escritora.

A periferia é onde é mais fácil a Mulher Melancia [ou a Bruna Surfistinha] ser escritora!


Darth Vader escreveu:Quem foi que disse que o periférico era periférico, certamente estava no centro. E onde fica o centro? Depende de quem fala. Depende da atitude deste que fala.

Com certeza!
Enquanto não houver a difusão do acesso à cultura, sempre seremos periferia.
De que adianta obras maravilhosas se ninguém as lê?

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Re: Literatura periférica

Mensagem por Teufel em Dom Ago 07, 2011 10:30 pm

Bom, já que fui eu que lancei o tópico, vou tentar me explicar um pouco. Vamos lá!
Em primeiro lugar, acho que é preciso retirar uma confusão em torno do termo de periférico. Não é um termo meu e eu não gosto dele. Mas o Schwarz usa ele no contexto da tradição marxista e em uma época que o mundo não era dividido em BRICS e países desenvolvidos e subdesenvolvidos, mas em de 'centros do capitalismo' e 'periferia do capitalismo'. Com certeza há bastante proximidade com o pensamento de Hobsbaum, concordemos com ele ou não. Ou seja, ele não está falando de literaturas periféricas, mas de literaturas de países periféricos. E o que eu acho interessante nesse livro, logo no começo, no meio da introdução, é que em meio ao desenvolvimento argumentativo da sua análise de Machado de Assis, ele discute a relação da literatura de países ditos periféricos do centro do capitalismo com as literaturas desses grandes centros. E ele faz isso justamente citando a literatura russa. A Rússia, apesar de estar 'metade' na Europa, é periférica, é completamente agrária, rural, arcaica - como dizem alguns, é 'um gigante dos pés de barro'. Bom, a literatura russa, diz Schwarz, em um primeiro momento pode parecer uma literatura que meramente copia a francesa: você pode tentar dividir a lit. russa em períodos semelhantes ao francês - classicismo, romantismo, realismo, etc -, contudo - e ai que está o ponto que me parece interessante - a literatura russa nunca é romântica, nunca é realista: Pushkin é 'romântico', mas banaliza o romantismo, faz troça - e não faz troça no mesmo estilo de um Sthendal; é diferente. Dostoiévski é 'realista', mas não é realista a moda de Zola. Se for uma apropriação, e se você insistir em classificá-los da mesma forma, é uma apropriação bem peculiar e única. Mas a coisa ainda fica pior: porque quando a literatura dos países do centro do capitalismo entram em contato com essa literatura periférica (de países periféricos), ela se modifica totalmente e é possível até se dizer que os escritores russos se adiantaram a certas tendências européias... Isso é muito louco. Schwarz conclui que a literatura dita periférica aprofunda as contradições da tendência mainstream, e antecipa seu fim, justamente por estar longe do modismo (e ai entendemos porque em um livro de Machado de Assis ele foi falar de literatura russa). É por isso que me parece que paradoxalmente a literatura mais periférica, longe dos grandes centros, pode ser até mais complexa do que a de países centrais. Por isso, gostei quando a Luciana disse: "A margem tantas vezes nos surpreende... No centro as coisas explodem, mas acaba havendo muita repetição, imitação, em algumas margens também."
Mas... continuemos pensando e problematizando!

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Re: Literatura periférica

Mensagem por Darth Vader em Sab Ago 13, 2011 5:57 pm

Rapá, uma dica: a crítica marxista de Schwarz já foi rebatida diversas vezes no que diz respeito a esta compreensão Metrópole x Colônia e dependência cultural. O texto "Ideias fora do lugar" já teve seu momento para explicar estas relações. Particularmente, acredito que o debate de Schwarz não rende mais na atualidade.

Prefiro o debate mais culturalista de Silviano Santiago, Eneida Maria de Sousa e tantos outros. São debates mais próximos da relação contemporânea com o fazer artístico da "Colônia"/"periferia". "Apesar de dependente, universal" de Santiago é um marco nessa discussão.

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Re: Literatura periférica

Mensagem por Cássia em Qua Dez 14, 2011 6:46 am

no fim das contas o Brasil é só um bebê no que diz respeito a literatura, não? Em relação à Europa nós seremos sempre periféricos. Gostem ou não, é isso ¯\_(ツ)_/¯

Eu sempre desconfio desse tipo de coisa. Porque parte-se do pressuposto que a literatura de um determinado lugar é parâmetro para as outras. Isso passa necessariamente pela definição do cânone. Quem decide isso? De uns tempos para cá, eu venho me questionando porque temos literatura portuguesa nas escolas, mas não temos literatura de outros países lusófonos. O que define a literatura portuguesa (e por extensão, a europeia) mais importante e melhor do que a de países como Moçambique, Angola ou Brasil? Não tô entrando no mérito da coisa, mas às vezes a gente incorpora essas coisas como se elas fossem dadas, sem se perguntar a quem isso é interessante.

Eu, por exemplo, como leitora leiga, acho o romance e o conto de Machado de Assis melhores do que o romance de Eça de Queirós e o conto de Tchekhov.

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Re: Literatura periférica

Mensagem por Becco em Qua Dez 14, 2011 7:17 am

Concordo, Cássia [menos coma parte entre o Tchékhov e o Machado, mas enfim...].

Hoje, nas faculdades de Letras, é obrigatória a cadeira de Literatura Africana, baseando-se no seu argumento.

Eu tive a oportunidade de ministrar essa cadeira este ano e foi necessário fazer uma grande pesquisa por que não conhecia nem os principais autores, já que, quando fiz a graduação, a cadeira nem existia.

Li obras africanas de língua portuguesa e posso afirmar, sem dúvida que elas não deixam nada a dever aos melhores trabalhos da literatura europeia.

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Re: Literatura periférica

Mensagem por Teufel em Qua Dez 14, 2011 11:04 am

Existem algumas coisas que é preciso atentar.
Uma é a questão histórica: 'tudo' nasceu no ocidente, a própria literatura russa que lemos, p.ex., é fruto de uma renovação da antiga literatura, a qual era praticamente eclesiástica ou voltada para o ambiente da corte. Púshkin é tido como o criador de uma literatura original, a lit. russa que conhecemos, na medida em que (e paradoxalmente) foi profundamente 'ocidentalista'.
Outra é o eurocentrismo dos próprios europeus, os primeiros a criarem modelos de se estudar a história. Eles são os cânones deles mesmos (e só aqui entra o juízo de valor a ser criticado): além deles, há a periferia. Acredito na pertinência do trabalho do Schwarz ainda nos dias de hoje como um olhar irônico em relação a essa divisão 'periferia-centro' na literatura (e na cultura).

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Re: Literatura periférica

Mensagem por Oric em Dom Dez 30, 2012 10:34 am

Ótimo tópico e já estava esquecido na segunda página, acho que merece o up.

Li recentemente uma entrevista do Rubens Figueiredo (tradutor do Tolstoi, dentro outros e também escritor) que toca nessa questão, tentando explicar o motivo da popularidade da literatura russa aqui no Brasil. Achei muito interessante e queria compartilhar com os colegas: http://gazetarussa.com.br/articles/2012/08/17/nao_e_uma_felicidade_participar_do_mundo_moderno_15223.html

Teufel escreveu:Schwarz conclui que a literatura dita periférica aprofunda as contradições da tendência mainstream, e antecipa seu fim, justamente por estar longe do modismo (e ai entendemos porque em um livro de Machado de Assis ele foi falar de literatura russa). É por isso que me parece que paradoxalmente a literatura mais periférica, longe dos grandes centros, pode ser até mais complexa do que a de países centrais.
Muito interessante e faz muito sentido para mim. Quero procurar esse livro.


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Re: Literatura periférica

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