[Thaís News] Começos e trechos inesquecíveis!

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[Thaís News] Começos e trechos inesquecíveis!

Mensagem por Becco em Qui Out 20, 2011 12:15 pm

Bem o título do tópico é autoexplicativo [em homenagem à nossa amiga Thaís, que adora uma citação]. Não se deve comprar um livro pela capa, mas, muitas vezes, o compramos pelas primeiras linhas ou pelo primeiro parágrafo, que, conosco ainda em pé ao lado da estante, nos arrebata e cativa.
Não é pra colocar citaçõõões enooormes, mas aquele trechinho inicial que tem força o suficiente pra lhe colocar dentro da história e dizer: "Caralho! Tenho que ler esse livro!".

Alguns dos meus prediletos são esses:




Vladimir Nabokov escreveu: Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.
Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.



Leo Tolstoy escreveu:Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.



Fiodor Dostoiévski escreveu:Sou um homem doente... Um homem mau. Um homem desagradável. Creio que sofro do fígado. Aliás, não entendo níquel da minha doença e não sei, ao certo, do que estou sofrendo. Não me trato e nunca me tratei, embora respeite a medicina e os médicos. Ademais, sou supersticioso ao extremo; bem, ao menos o bastante para respeitar a medicina. (Sou suficientemente instruído para não ter nenhuma superstição, mas sou supersticioso.) Não, se não quero me tratar, é apenas de raiva. Certamente não compreendeis isto. Ora, eu compreendo. Naturalmente não vos saberei explicar a quem exatamente farei mal, no presente caso, com a minha raiva; sei muito bem que não estarei a "pregar peças" nos médicos pelo fato de não me tratar com eles; sou o primeiro a reconhecer que, com tudo isto, só me prejudicarei a mim mesmo e a mais ninguém. Mas, apesar de tudo, não me trato por uma questão de raiva. Se me dói o fígado, que doa ainda mais.



João Guimarães Rosa escreveu:-Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. O senhor ri certas risadas... Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente - depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucaia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde um criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucuia vem dos montões oestes. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda parte.



D. H. Lawrence escreveu:A nossa época é essencialmente trágica, e por isso recusamo-nos a vivê-la como tal. Mas o cataclismo já aconteceu; estamos entre ruínas, começamos a reconstruir pequenas casas, refazer pequenas esperanças. O trabalho é árduo: o caminho para o futuro não será tranquilo: apesar de tudo, damos a volta, arrastamo-nos sobre as pedras. Só nos resta viver, não importa quantos céus tenham desmoronado.



Albert Camus escreveu:Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: "Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames". Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.



Franz Kafka escreveu:Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado, viu que se transformara, em sua cama, numa espécie monstruosa de inseto.



Cormac McCarthy escreveu:Mandei um garoto para a câmara de gás em Huntsville. Foi só um. Eu prendi e testemunhei contra ele. Fui até lá conversar com ele duas ou três vezes. Três vezes. A última foi no dia da execução. Eu não tinha que ir, mas fui. Claro que não queria ir. Ele tinha matado uma garota de catorze anos e posso te dizer hoje que nunca tive muita vontade de conversar com ele, muito menos de ir à sua execução, mas fui. Os jornais diziam que tinha sido crime passional e ele me disse que não havia paixão nenhuma naquilo. Andava saindo com essa garota, mesmo tão jovem como ela era. Ele tinha dezenove. E me disse que estava planejando matar alguém desde quando era capaz de se lembrar. Disse que se o soltassem ia fazer de novo. Disse que sabia que ia para o inferno. Disse isso para mim com sua própria boca. Não sei o que pensar disso. Não sei mesmo. Achei que nunca tinha visto uma pessoa assim e fiquei me perguntando se ele seria de uma nova espécie. Fiquei observando enquanto amarravam ele no assento e fechavam a porta. Ele talvez parecesse um pouco nervoso, mas era tudo. Eu realmente acredito que ele sabia que estaria no inferno dentro de quinze minutos. Acredito nisso. E já pensei um bocado a respeito. Não era difícil conversar com ele. Me chamava de Xerife. Mas eu não sabia o que dizer a ele. O que você diz a um cara que, segundo ele mesmo, não tem alma? Por que você diria alguma coisa? Pensei bastante sobre isso. Mas ele não era nada comparado ao que viria pela frente.



Italo Calvino escreveu:Você vai começar a ler o novo romance de Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno. Relaxe. Concentre-se. Afaste todos os outros pensamentos. Deixe que o mundo a sua volta se dissolva no indefinido. É melhor fechar a porta; do outro lado há sempre um televisor ligado. Diga logo aos outros: "Não, não quero ver televisão!". Se não ouvirem, levante a voz: "Estou lendo! Não quero ser perturbado!". Com todo aquele barulho, talvez ainda não o tenham ouvido; fale mais alto, grite: "Estou começando a ler o novo romance de Italo Calvino!". Se preferir, não diga nada; tomara que o deixem em paz.



Raduan Nassar escreveu:Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo; eu estava deitado no assoalho do meu quarto, numa velha pensão interiorana, quando meu irmão chegou para me levar de volta; minha mão, pouco antes dinâmica e em dura disciplina, percorria vagarosa a pele molhada do meu corpo, as pontas dos meus dedos tocavam cheias de veneno a penugem incipiente do meu peito ainda quente; (…)



Graham Greene escreveu:Uma história não tem princípio nem fim: arbitrariamente, escolhe-se o momento vivido de onde se deve olhar para trás ou para a frente. Eu digo “escolhe-se” com o orgulho incorreto de um escritor profissional que tem sido elogiado – quando observado com seriedade – pela sua habilidade técnica, mas será que, de fato, escolho aquela noite escura e úmida de janeiro no Common, em 1946, a figura de Henry Miles atravessando, inclinada, o grande rio de chuva, ou são essas imagens que me escolhem? É conveniente e correto, segundo as regras do meu ofício, começar exatamente aqui, mas se eu tivesse acreditado então em um Deus, poderia também ter acreditado numa voz, sugerindo ao meu ouvido, “Fale com ele: ele ainda não viu você”.



Julio Cortázar escreveu:Encontraria a Maga? Tantas vezes, bastara-me chegar, vindo pela rue de Seine, ao arco que dá para o Quai de Conti, e mal a luz cinza e esverdeada que flutua sobre o rio deixava-me entrever as formas, já sua delgada silhueta se inscrevia no Pont des Arts, por vezes andando de um lado para o outro da ponte, outras vezes imóvel, debruçada sobre o parapeito de ferro, olhando a água. E, então, era muito natural atravessar a rua, subir as escadas da ponte, dar mais alguns passos e aproximar-me da Maga, que sorria sempre, sem surpresa, convencida, como eu também o estava, de que um encontro casual era o menos casual em nossas vidas e de que as pessoas que marcam encontros exatos são as mesmas que precisam de papel com linhas para escrever ou aquelas que começam a apertar pela parte de baixo o tubo de pasta dentifrícia.



Clarice Lispector escreveu:Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o que, mas sei que o universo jamais começou.



Marguerite Duras escreveu:Certo dia, já na minha velhice, um homem se aproximou de mim no saguão de um lugar público. Apresentou-se e disse: "Eu a conheço há muito, muito tempo. Todos dizem que era bela quando jovem, vim dizer-lhe que para mim é mais bela hoje do que em sua juventude, que eu gostava menos de seu rosto de moça do que desse de hoje, devastado."

Penso freqüentemente nessa imagem que só eu ainda vejo e sobre a qual jamais falei a alguém. Está sempre lá no mesmo silêncio, maravilhosa. É entre todas a que me faz gostar de mim, na qual me reconheço, a que me encanta.

Muito cedo na minha vida ficou tarde demais. Quando eu tinha dezoito anos já era tarde demais.



Javier Márias escreveu:Eu não quis saber, mas soube que uma das meninas, quando já não era menina e não fazia muito voltara de sua viagem de lua-de-mel, entrou no banheiro, pôs-se diante do espelho, abriu a blusa, tirou o sutiã e procurou o coração com a ponta da pistola do próprio pai, que estava na sala de almoço com parte da família e três convidados. Quando se ouviu a detonação, uns cinco minutos depois de a menina ter abandonado a mesa, o pai não se levantou de imediato, mas ficou alguns segundos paralisado com a boca cheia, sem se atrever a mastigar nem a engolir nem, menos ainda, a devolver o bocado ao prato; quando por fim se levantou e correu para o banheiro, os que o seguiram viram como, enquanto descobria o corpo ensangüentado da filha e levava as mãos à cabeça, ia passando o bocado de carne de um lado ao outro da boca, sem saber ainda o que fazer com ele.



Gabriel García Márquez escreveu:Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.



Charles dickens escreveu:Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós, íamos todos direto para o Paraíso, íamos todos direto no sentido contrário (…)


Última edição por Lorenzo Becco em Qui Jan 05, 2012 10:52 am, editado 1 vez(es)

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Mensagem por tmanfrini em Qui Out 20, 2011 12:45 pm

(Lisonjeada!)
Quero muito Coração Tão Branco, Lorenzo, veio a calcificar.

Vale epígrafe? Senão esclareça aí.
Segue epígrafe em Aura, do Carlos Fuentes, palavras de Jules Michelet.

O homem caça e luta. A mulher intriga e sonha; É a mãe da fantasia, dos deuses. Possui a segunda visão, as asas que lhe permitem voar para o infinito do desejo e da imaginação... Os deuses são como os homens: Nascem e morrem sobre o peito de uma mulher...


Última edição por tmanfrini em Qui Out 20, 2011 12:52 pm, editado 2 vez(es)

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Re: [Thaís News] Começos e trechos inesquecíveis!

Mensagem por Mat em Qui Out 20, 2011 12:46 pm

Um dos melhores tópicos!

Uma estadia no inferno - Rimbaud


"Antigamente, se bem me lembro, minha vida era um festim, onde se abriam todos os corações e corriam todos os vinhos. Uma noite, sentei a beleza no meu colo. - E a achei amarga. E a xinguei."

Ulisses - Joyce

Majestoso, o gorducho Buck Mulligan apareceu no topo da escada, trazendo na mão uma tigela com espuma sobre a qual repousavam, cruzados, um espelho e uma navalha de barba. Um penhoar amarelo, desamarrado, flutuando suavemente atrás dele no ar fresco da manhã. Ele ergueu o tigela e entoou: Introibo ad altare Dei.

Ps: Esse trecho que tu postou do "Lolita", Becco, abriu meu o apetite!


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Re: [Thaís News] Começos e trechos inesquecíveis!

Mensagem por Mat em Qui Out 20, 2011 1:27 pm

Não é um começo propriamente dito, mas está ali pelas páginas iniciais do "À la recherche du temps perdu"





"E a doença que era o amor de Swann se havia multiplicado tanto, estava tão estreitamente emaranhada a todos os seus hábitos, a todos os seus atos, a seu pensamento, sua saúde, seu sono, sua vida, até mesmo àquilo que se desejava para depois de sua morte, formava com ele tão praticamente um todo, que não se poderia arrancá-la dele sem destruí-lo quase por inteiro: como se diz em cirurgia, seu amor não era mais operável."

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Re: [Thaís News] Começos e trechos inesquecíveis!

Mensagem por tmanfrini em Qui Out 20, 2011 1:37 pm

Mat escreveu:Não é um começo propriamente dito, mas está ali pelas páginas iniciais do "À la recherche du temps perdu"





"E a doença que era o amor de Swann se havia multiplicado tanto, estava tão estreitamente emaranhada a todos os seus hábitos, a todos os seus atos, a seu pensamento, sua saúde, seu sono, sua vida, até mesmo àquilo que se desejava para depois de sua morte, formava com ele tão praticamente um todo, que não se poderia arrancá-la dele sem destruí-lo quase por inteiro: como se diz em cirurgia, seu amor não era mais operável."
Trabalhão que tive pra tirar da pilha! Dou o começo então -

Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo. Às vezes mal apagava a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: "Adormeço." E, meia hora depois, despertava-me a ideia de que já era tempo de procurar dormir; Queria largar o volume que imaginava ainda ter em mãos e soprar a vela; Durante o sono não havia cessado de refletir sobre o que acabara de ler, mas essas reflexões tinham assumido uma feição um tanto particular; Parecia-me que eu era o assunto de que tratava o livro: Uma igreja, um quarteto, a rivalidade entre Francisco I e Carlos V.

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Re: [Thaís News] Começos e trechos inesquecíveis!

Mensagem por Becco em Qui Out 20, 2011 1:51 pm

tmanfrini escreveu:(Lisonjeada!)
Quero muito Coração Tão Branco, Lorenzo, veio a calcificar.

Essa edição da Companhia de Bolso é fácil de encontrar e não é tão cara.


tmanfrini escreveu:Vale epígrafe? Senão esclareça aí.

Tecnicamente não vale, mas, se é a primeira coisa do livro, pode ser.

Marcel Proust escreveu:Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo. Às vezes mal apagava a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: "Adormeço." E, meia hora depois, despertava-me a ideia de que já era tempo de procurar dormir; Queria largar o volume que imaginava ainda ter em mãos e soprar a vela; Durante o sono não havia cessado de refletir sobre o que acabara de ler, mas essas reflexões tinham assumido uma feição um tanto particular; Parecia-me que eu era o assunto de que tratava o livro: Uma igreja, um quarteto, a rivalidade entre Francisco I e Carlos V.

Ia colocar esse no meu primeiro post, mas tinha tanta certeza de que alguém mais [provavelmente o Mat] ia postá-lo que não me dei ao trabalho.

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Re: [Thaís News] Começos e trechos inesquecíveis!

Mensagem por tmanfrini em Qui Out 20, 2011 1:55 pm

Obs.: Sei que aqui todo mundo ama Proust de paixão, então se alguém quiser algo mais enleado basta comentar comigo. Vi que fiz alguns registros.

(Fácil, Lorenzo?, sempre que procurei o título se encontrava esgotado...)

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Re: [Thaís News] Começos e trechos inesquecíveis!

Mensagem por Becco em Qui Out 20, 2011 2:07 pm

Mat escreveu:Ps: Esse trecho que tu postou do "Lolita", Becco, abriu meu o apetite!

Gosto muito desse trecho e também da tradução do Jorio Dauster.
No original é assim:

Vladimir Nabokov escreveu:Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo. Lee. Ta. She was Lo, plain Lo, in the morning, standing four feet ten in one sock. She was Lola in slacks. She was Dolly at school. She was Dolores on the dotted line. But in my arms she was always Lolita.

Acho sensacional que o trecho em negrito foi traduzido como "Minha alma, minha lama", que, obviamente, não é a tradução exata, mas é a melhor possível por que mantém a relação fonética entre as duas palavras!


tmanfrini escreveu:(Fácil, Lorenzo?, sempre que procurei o título se encontrava esgotado...)

Procure AQUI, Thaís. Tem um por 13 reais com frete grátis!


Última edição por Lorenzo Becco em Qui Out 20, 2011 2:12 pm, editado 2 vez(es)

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Re: [Thaís News] Começos e trechos inesquecíveis!

Mensagem por tmanfrini em Qui Out 20, 2011 2:10 pm

Lorenzo Becco escreveu:
Mat escreveu:Ps: Esse trecho que tu postou do "Lolita", Becco, abriu meu o apetite!

Gosto muito desse trecho e também da tradução do Jorio Dauster.
No original é assim:

Vladimir Nabokov escreveu:Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo. Lee. Ta. She was Lo, plain Lo, in the morning, standing four feet ten in one sock. She was Lola in slacks. She was Dolly at school. She was Dolores on the dotted line. But in my arms she was always Lolita.

Acho sensacional que o trecho em negrito foi traduzido como "Minha alma, minha lama", que, obviamente, não é a tradução exata, mas é a melhor possível por que mantém a relação fonética entre as duas palavras!


tmanfrini escreveu:(Fácil, Lorenzo?, sempre que procurei o título se encontrava esgotado...)

Procure AQUI, Thaís. Tem um por 13 reais com frete grátis!
Concordo, sensacional.
Ah sim, é que esse eu queria 0Km. flower

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Re: [Thaís News] Começos e trechos inesquecíveis!

Mensagem por Becco em Qui Out 20, 2011 2:16 pm

tmanfrini escreveu:Ah sim, é que esse eu queria 0Km. flower

Tem uns bem novinhos na Estante.
Mas também tem na CULTURA.
Tá por R$24, ainda dá pra pedir no amigo secreto.

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Re: [Thaís News] Começos e trechos inesquecíveis!

Mensagem por tmanfrini em Qui Out 20, 2011 2:21 pm

Lorenzo Becco escreveu:
tmanfrini escreveu:Ah sim, é que esse eu queria 0Km. flower

Tem uns bem novinhos na Estante.
Mas também tem na CULTURA.
Tá por R$24, ainda dá pra pedir no amigo secreto.
Valeu, Lorenzo! Poderia de brinde dar sua opinião sobre o livro?

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Re: [Thaís News] Começos e trechos inesquecíveis!

Mensagem por Becco em Qui Out 20, 2011 2:39 pm

Olha aí, Thaís! Tá R$11,90 no SUBMARINO!

tmanfrini escreveu:Valeu, Lorenzo! Poderia de brinde dar sua opinião sobre o livro?

Olha, não é um bom livro pra recém-casados. Brincadeira.
É a história de um casal jovem, mas que tem que lidar com segredos familiares.
Eu gosto por que fala de duas coisas do meu interesse: tradução [o protagonista é um tradutor/intérprete] e conflitos familiares.
Ele, conforme certos segredos vão sendo revelados, tem que interpretá-los [traduzi-los?] à luz de sua própria experiência.
O título foi tirado de MacBeth.

Não vou contar mais pra não estragar nenhuma surpresa, mas é um grande romance espanhol e tem uma ótima tradução do Eduardo Brandão [tradutor das obras do Roberto Bolaño para o português].

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Re: [Thaís News] Começos e trechos inesquecíveis!

Mensagem por tmanfrini em Qui Out 20, 2011 3:15 pm

Lorenzo Becco escreveu:Olha aí, Thaís! Tá R$11,90 no SUBMARINO!

tmanfrini escreveu:Valeu, Lorenzo! Poderia de brinde dar sua opinião sobre o livro?

Olha, não é um bom livro pra recém-casados. Brincadeira.
É a história de um casal jovem, mas que tem que lidar com segredos familiares.
Eu gosto por que fala de duas coisas do meu interesse: tradução [o protagonista é um tradutor/intérprete] e conflitos familiares.
Ele, conforme certos segredos vão sendo revelados, tem que interpretá-los [traduzi-los?] à luz de sua própria experiência.
O título foi tirado de MacBeth.

Não vou contar mais pra não estragar nenhuma surpresa, mas é um grande romance espanhol e tem uma ótima tradução do Eduardo Brandão [tradutor das obras do Roberto Bolaño para o português].
(Tô casada há um ano. E vamos até à cova juntos espero eu. Quanto a isso pouco perigo. ^^)
Uhumm, foi mais ou menos o que me disseram. Ai, preciso desse livro!. Obrigada novamente.

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Re: [Thaís News] Começos e trechos inesquecíveis!

Mensagem por tiago em Qui Out 20, 2011 4:52 pm

Javier Marías eu li Seu Rosto Amanhã, e achei espetacular e quero ler o resto dele. O protagonista de Coração Tão branco é o mesmo?



Javier Marías escreveu: "Ninguém nunca devia contar nada, nem fornecer dados nem veicular histórias nem fazer com que pessoas recordem seres que nunca existiram nem pisaram na terra ou cruzaram o mundo, ou que, sim, passaram mas já estavam meio a salvo no retorcido e seguro esquecimento. Contar é quase sempre uma oferenda, mesmo quando o conto leva e injeta veneno; é também um vínculo e outorgar confiança, e rara é a confiança que mais cedo ou mais tarde não é traída, raro o vínculo que não se enreda ou amarra, e assim acaba num nó e tem-se de sacar faca ou o gume para cortá-lo (...)"

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Re: [Thaís News] Começos e trechos inesquecíveis!

Mensagem por Becco em Qui Out 20, 2011 9:09 pm

tpnocera escreveu:O protagonista de Coração Tão branco é o mesmo?

Não sei, Tiago. Não li esse. Qual o nome do protagonista?

Javier Marías escreveu: "Ninguém nunca devia contar nada, nem fornecer dados nem veicular histórias nem fazer com que pessoas recordem seres que nunca existiram nem pisaram na terra ou cruzaram o mundo, ou que, sim, passaram mas já estavam meio a salvo no retorcido e seguro esquecimento. Contar é quase sempre uma oferenda, mesmo quando o conto leva e injeta veneno; é também um vínculo e outorgar confiança, e rara é a confiança que mais cedo ou mais tarde não é traída, raro o vínculo que não se enreda ou amarra, e assim acaba num nó e tem-se de sacar faca ou o gume para cortá-lo (...)"

Muito bom.

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Re: [Thaís News] Começos e trechos inesquecíveis!

Mensagem por tiago em Qui Out 20, 2011 9:41 pm

Tu rostro mañana es la décima novela de Javier Marías. Narra la historia de Jaime Deza, académico español al servicio del MI5, quien ha vuelto a Oxford después de separarse. Deza, es también el personaje de una novela previa, Todas las almas (1989), (...)

Não é, mas também é tradutor/interpréte.

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Re: [Thaís News] Começos e trechos inesquecíveis!

Mensagem por Gourmet em Qui Out 20, 2011 9:47 pm

Tópico bom. Há muita coisa para postar, mas como é preciso transcrever, vou selecionar uma coisa que li já tem tempo e está na fila da releitura, que é o AGORA É QUE SÃO ELAS, do Paulo Leminski.

Aos 18 anos, pensei ter atingido a sabedoria.
Era baixinha, tinha sardas e tirei-lhe o cabaço na primeira oportunidade.
Não ficou por isso.
A lei falou mais forte. E tive que me casar, prematuro como uma ejaculação precoce.
Nem tudo foram rosas, no princípio.
Nos pulsos ainda me ardem as cicatrizes de três mal sucedidas tentativas de suicídio.
Mas eu não posso ver sangue. Sobretudo, quando meu.
Assim decidi continuar vivo.
Principalmente porque o mundo estava cheio delas.
De Marlenes. De Ivones. De Déboras. De Luízas. de Sônias. De Olgas. De Sandras. De Edites. De Kátias. De Rosas. De Evas. De Anas. De Mônicas. De Helenas. De Rutes. De Raquéis. De Albertos. De Carlos. De Júniors, De... (ihh, acho que acabo de cometer um ato falho). De Joanas. De Veras. De Normas.

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Saint-Martin

Mensagem por tmanfrini em Sex Out 21, 2011 8:13 am

Denovo epígrafe,
Não há ninguém de boa fé e cujo espírito não esteja obscurecido ou armado de prevenção, que não se convença de que a vida corporal do homem é uma privação e um sofrimento contínuos. Dessa forma, considerando os conceitos que adquirimos de justiça, não será desarrazoado encarar a duração desta vida corpórea como um tempo de castigo e expiações; Contudo, não a podemos considerar dessa forma sem admitir igualmente que tenha havido para o homem um estado anterior e preferível a este em que ora se encontra, podendo-se dizer que, quanto mais seu estado atual parece limitado, penoso e semeado de desgostos, mais deve ser o outro ilimitado e repleto de delícias.

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Re: [Thaís News] Começos e trechos inesquecíveis!

Mensagem por Karenina em Sex Out 21, 2011 10:06 am

Acho o final de A peste, do Camus fantástico. Tô caçando aqui pra desafinar o coro dos contentes, mas no estágio não abre 4shared e afins. Tá difícil, hein?

Pronto!

Camus escreveu:
Na verdade, ao ouvir os gritos de alegria que vinham da cidade, Rieux lembrava-se de que essa alegria estava sempre ameaçada. Porque ele sabia o que essa multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.



O Estado de sítio e A Peste são irmãozinhos.


Última edição por Natasha em Sex Out 21, 2011 10:23 am, editado 2 vez(es)

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Re: [Thaís News] Começos e trechos inesquecíveis!

Mensagem por tmanfrini em Sex Out 21, 2011 10:12 am

Natasha escreveu:Acho o final de A peste, do Camus fantástico. Tô caçando aqui pra desafinar o coro dos contentes, mas no estágio não abre 4shared e afins. Tá difícil, hein?
Os finais valendo acho formidável, alguns desfechos simplesmente me tiram o fôlego. (Porém cuidemos com spoiler!) Não li A Peste ainda, só que adorei Estado de Sítio, então 'tá à caminho.

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Re: [Thaís News] Começos e trechos inesquecíveis!

Mensagem por Becco em Sex Out 21, 2011 10:22 am

Natasha escreveu:
Camus escreveu:
Na verdade, ao ouvir os gritos de alegria que vinham da cidade, Rieux lembrava-se de que essa alegria estava sempre ameaçada. Porque ele sabia o que essa multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.

Esse é o final ou é o começo?

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Re: [Thaís News] Começos e trechos inesquecíveis!

Mensagem por Karenina em Sex Out 21, 2011 10:25 am

Lorenzo Becco escreveu:
Natasha escreveu:
Camus escreveu:
Na verdade, ao ouvir os gritos de alegria que vinham da cidade, Rieux lembrava-se de que essa alegria estava sempre ameaçada. Porque ele sabia o que essa multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.

Esse é o final ou é o começo?

Final! Estou desafinando o coro dos contentes rs

Ó o começo aqui:

Camus escreveu:
Os curiosos acontecimentos que são o objeto desta crónica ocorreram em 194..., .em Oran. Segundo a opinião geral, estavam deslocados, já que saíam um pouco do comum. À primeira vista, Oran é, na verdade, uma cidade comum e não passa de uma prefeitura francesa na costa argelina.

A própria cidade, vamos admiti-lo, é feia. com seu aspecto tranqüilo, é preciso algum tempo para se perceber o que a torna diferente de tantas outras cidades comerciais em todas as latitudes. Como imaginar, por exemplo, uma cidade sem pombos, sem árvores e sem jardins, onde não se encontra o rumor de asas, nem o sussurro de folhas. Em resumo: um lugar neutro. Apenas no céu se lê a mudança das estações. A primavera só se anuncia pela qualidade do ar ou pelas cestas de flores que os pequenos vendedores trazem dos subúrbios: é uma primavera que se vende nos mercados. Durante o verão, o sol incendeia as casas muito secas e cobre as paredes de uma poeira cinzenta; então, só é possível viver à sombra das persianas fechadas. No outono, pelo contrário, é um dilúvio de lama. Os dias bonitos só chegam no inverno.

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Re: [Thaís News] Começos e trechos inesquecíveis!

Mensagem por Jabá em Sex Out 21, 2011 10:42 am

O Cobrador

Rubem Fonseca


NA PORTA da rua uma dentadura grande, embaixo escrito Dr. Carvalho, Dentista. Na sala de espera vazia uma placa, Espere o Doutor, ele está atendendo um cliente. Esperei meia hora, o dente doendo, a porta abriu e surgiu uma mulher acompanhada de um sujeito grande, uns quarenta anos, de jaleco branco.

Entrei no gabinete, sentei na cadeira, o dentista botou um guardanapo de papel no meu pescoço. Abri a boca e disse que o meu dente de trás estava doendo muita. Ele olhou com um espelhinho e perguntou como é que eu tinha deixado os meus dentes ficarem naquele estado.

Só rindo. Esses caras são engraçados.

Vou ter que arrancar, ele disse, o senhor já tem poucos dentes e se não fizer um tratamento rápido vai perder todos os outros, inclusive estes aqui — e deu uma pancada estridente nos meus dentes da frente.

Uma injeção de anestesia na gengiva. Mostrou o dente na ponta do boticão: A raiz está podre, vê?, disse com pouco caso.

São quatrocentos cruzeiros.

Só rindo. Não tem não, meu chapa, eu disse.

Não tem não o quê?

Não tem quatrocentos cruzeiros. Fui andando em direção à porta.

Ele bloqueou a porta com o corpo. É melhor pagar, disse. Era um homem grande, mãos grandes e pulso forte de tanto arrancar os dentes dos fodidos. E meu físico franzino encoraja as pessoas. Odeio dentistas, comerciantes, advogadas, industriais, funcionários, médicos, executivos, essa canalha inteira. Todos eles estão me devendo muito. Abri o blusão, tirei o 38, e perguntei com tanta raiva que uma gota de meu cuspe bateu na cara dele, -- que tal enfiar isso no teu cu? Ele ficou branco, recuou. Apontando o revólver para o peito dele comecei a aliviar o meu coração: tirei as gavetas dos armários, joguei tudo no chão, chutei os vidrinhos todos como se fossem balas, eles pipocavam e explodiam na parede. Ar­rebentar os cuspidores e motores foi mais difícil, cheguei a machucar as mãos e os pés. O dentista me olhava, várias vezes deve ter pensado em pular em cima de mim, eu queria muito que ele fizesse isso para dar um tiro naquela barriga grande cheia de merda.

Eu não pago mais nada, cansei de pagar!, gritei para ele, agora eu só cobro!

Dei um tiro no joelho dele. Devia ter matado aquele filho da puta.

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Re: [Thaís News] Começos e trechos inesquecíveis!

Mensagem por Becco em Sex Out 21, 2011 10:51 am

Muito foda esse do Fonseca!
"O Cobrador" é Fonseca da Era de Ouro, amiches!

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Trad. João Guilherme Linke

Mensagem por tmanfrini em Dom Out 23, 2011 1:02 pm


  • A primeira ideia que formei do mundo veio-me de uma velha Bíblia ilustrada. Havia uma série de estampas do século XVII, em que o paraíso terrestre tinha o frescor exuberante de uma paisagem holandesa. Viam-se cavalos brabanções, coelhos, leitões, galinhas, carneiros de grossas caudas. Entre os animais da criação, Eva passeava os seus encantos flamengos. Mas eram então tesouros perdidos: Eu preferia os cavalos.
    A sétima página (Posso vê-la ainda) representava a arca de Noé no momento em que embarcavam os casais de bichos. Na minha Bíblia, a arca de Noé era uma espécie de longa caravela encimada por um castelo de madeira, com um telhado de duas águas. Era exatamente igual à que eu ganhara de presente de Natal, e que exalava um bom aroma de resina. O que para mim constituía uma prova cabal da veracidade das Santas Escrituras.

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Re: [Thaís News] Começos e trechos inesquecíveis!

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